Sou narrador onisciente de um romance quando o corpo teve febre e ácidos que em vez de queimarem sustentaram essa frágil criatura aqui dentro cujo nome não nomeio nem ouso pensar. Apareceu-me assim, de modo camuflado como se fosse um acidente, mas não. Tudo estava meticulosamente preparado por ela, para aquele que foi o dia final de todas as histórias que vivi ou que foram vividas por mim, alheia a minha vontade.
Não ousaria confessar, a você que me vê, essa parca noção do que eu acho que é e foi ou será essa minha história toda. Quero dizer, eu já disse alguma coisa, já disse que era uma parca noção, nisso você já poderia imaginar o que está passando pela minha cabeça nesse exato momento, se é que você é uma pessoa de mínimo juízo. Mas não posso falar mais nada pois qualquer coisa que eu diga será confissão de segredo.
Não me sinto preparado o suficiente. É. Digo e repito.
Guarde-me secretamente como aquilo que já se esqueceu. Tudo que se esquece transforma-se em uma canção que ninguém ouve.
Isso é que é uma boa ficção: essa ressurreição toda de agora.
Engraçado mesmo era aquele discurso com todos os valores expletivos da nossa linguagem.
Paródia, paródia, parole!!!
Tenho que ir agora, não posso mais estar aqui.
Depois eu volto, talvez mais corajoso.
Quando eu voltar, talvez exploda a minha biblioteca
Engraçado sou eu tentando começar essa narrativa, por necessidade final, e saindo por evasivas como se houvesse um vestígio de medo ou constrangimento em me pôr aqui. Como se houvesse tempo para sair.Só me resta ficar, ficar aqui. Antes de ser minha, a história, poderia ter sido de qualquer um nessa sala. Todas as histórias se repetem, na vida ordinária ou na literatura, na mesma medida ordinária.Deixe eu me apresentar. Não sou um escritor. Ou seja, não sou um escritor no sentido capitalista da palavra pois nunca acreditei que escrevendo mentiras e absurdos da imaginação alguém poderia pagar suas próprias despesas honestamente. E nunca acreditei que, no fundo, as pessoas em uma sociedade precisassem de poetas e de histórias mirabolantes nascidas na imaginação doentia de alguém. Alguns dizem que o artista tem um olhar de mundo. Eu também tenho o meu, você também, todos nós temos um olhar de mundo. Até aí morreu Neves. E eu nunca dependi de ninguém para pagar as minhas contas.Mas que despesas eu me dava? Livros, cds, um puff vermelho no qual me jogava todas as noites, frutas e cereais, carnes brancas e leite, água, eletricidade. De que mais um homem precisa para viver?Então, se eu tinha alguma queda pela literatura, deixava os pensamentos fugirem, não os escrevia, não os anotava, até que um dia eu nem me lembrava que era tomado por frases e histórias mirabolantes e romanescas.Eu me esqueci da literatura. Eu me esqueci. Mas apesar de todo esse esquecimento eu era um homem forte, alto e de muita coragem. Não tinha medo de encarar a vida, fosse o que for.Rosa sentava comigo todas as noites, pegava a minha mão, lembrava de quando as crianças eram crianças. Eu dizia: As crianças não existem mais, Rosa. Dois meninos. E mulher mãe de filho homem é uma coisa muito mais sufocante. É mais difícil criar um homem quando se é uma mulher. Incomodava-me esse apego. Rosa com seus objetos de afeto e de trabalho ocupava os outros cômodos da casa, e eu ficava nesse cantinho do nosso quarto aonde dormíamos juntos há 17 anos, tentando me recordar de algo que eu havia esquecido mas que nem me lembrava mais. Quando acabava o horário do expediente, vinha esse sensação de que eu havia esquecido de alguma coisa em algum lugar, ambos - lugar e coisa - difíceis de definir. Era eu assim, todos os dias, sensação de ter esquecido algo. Chegava em casa, Rosa já havia chegado, e às vezes trepávamos sem muito desejo pois o tempo acabara com os meus. Mas havia no corpo uma biologia sem ansiedade, o corpo pedia, então trepávamos.Aos domingos íamos a missa católica na igrejinha do largo, depois do calórico macarrão de domingo que Rosa cozinhava insistentemente. Eu a ajudava na cozinha, não, não a ajudava, eu compartilhava daquele prazer de cores e cheiros e texturas das ervas, o branco fino do sal e mais as especiarias. E as carnes, especialmente,as carnes, como se pegasse nas mãos um desejo meu novo e concreto com sangue, fluidos, algo morto que se tornaria saboroso e me daria força, aquela força para o corpo que vem do que se come. O cheiro da carne. Da carne crua como um corpo nu, a carne exatamente cheirando aos fluidos de um corpo, suores, salivas, fios de cabelo. Era eu um corpo saboreando desavergonhadamente a carne morta de outro.Almoçávamos nesse ritual todos os domingos. Para Rosa era só um macarrão, para mim uma comida que eu não sorvia mais.
A outra verdade que tenho é que eu sou um homem de muitas línguas e poucas linguagens. E isso é o mesmo que dizer que sou um homem de muitas palavras e poucos fatos.
É melhor preparar um pouco mais de tempero.
a lembrança de meus tormentos e minhas misérias é para mim absinto e veneno.
Bíblia Sagrada. Livro das Lamentações,3:19.
Bíblia Sagrada. Livro das Lamentações,3:19.
Erva do Absinto
por Andrea Carvalho Stark
Diálogo de uns poucos
ENTÃO, depois de tanto relutar, vejo-me aqui na sombra desse quarto a escrever. Depois dos temperos, comemos e nada mais. Assim passaram os dias e as horas eram rápidas para quem não sabia onde ir. No escritório onde trabalhava - de representação de uma marca comercial - as vendas iam bem de vento e pompa.E eu resignava-me com os ventos e as pompas.
ATÉ QUE... como em toda narrativa houve uma mudança que poderia ser a ida de alguém ou a chegada de alguém ou a descoberta de que nada e ninguém haveria de chegar e tudo ficaria assim desse jeito. Mas , no meu particularíssimo caso, houve a chegada de alguém, primeiro miragem, depois passagem, até a definitiva chegada de alguém que ficou ali, parado na minha frente. Eu estava tomando meu café da tarde no boteco da praça. Letícia.
(depois continua...)
mais absintos
o que é ?
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